CESÁRIO VERDE (1855-1886)

Foi um dos grandes poetas portugueses. A sua obra não é muito vasta, porque morreu de tuberculose com apenas trinta e um anos. Foi jornalista e começa a publicar os seus poemas nos jornais, sobretudo no Diário de Notícias. Apesar desta divulgação, a importância da sua obra não foi reconhecida durante a sua vida. Foi, aliás, mordazmente criticada por Ramalho Ortigão e Teófilo Braga, seus contemporâneos. Só em 1887, um ano depois da sua morte, e quando Silva Pinto faz publicar em livro alguns dos poemas, “O livro de Cesário Verde”, é que começa o seu apreço público. Escreveu mais poesia, mas os outros poemas acabaram por não ser publicados por terem desaparecido num incêndio em sua casa, em 1919.

Hoje, a sua obra é muito apreciada. “Só” é, talvez, o seu livro mais conhecido, o “livro mais triste publicado em Portugal”, segundo o autor. Mas é indubitável a sua influência na poesia moderna portuguesa. Um modernista antes do tempo: o retrato da vida quotidiana, das coisas humildes e simples do dia a dia; o binómio campo/cidade, que serve de suporte aos sentimentos e ideias do poeta, aproximam-no do Realismo e do Naturalismo. A sua obra tem sido objecto de estudo, com opiniões muito variadas.

Ficha informativa

Base de Dados de Autores Portugueses

(adaptação: professora Adelaide Saraiva)

©PAABECRE Efemérides Cesário Verde 2017/2018

Alguns dos seus poemas:

Contrariedades”  – A critica sócio cultural.

“ Deslumbramentos”, “A débil”, “Manhãs Brumosas” – A diversidade dos      perfis femininos.

“ De tarde” – A aguarela impressionista.

“ Nós” – O campo e a cidade.

“Cristalizações” – Apologia do povo trabalhador, num ambiente citadino.

“ Sentimento de um ocidental” – A visão nocturna da cidade – Realismo/ Simbolismo

 

Impossível

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá essa é que eu não caio!

Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’

 

 

 

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!

Cesário Verde, in ‘O Livro de Cesário Verde’

 

 

De Tarde

 

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde

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