O Natal escrito por autores portugueses

Uma literatura de afectos, por vezes fácil, outras vezes instrumental, mas outras tantas aprofundando a fenomenologia da condição humana, desenvolve-se aí com continuidades e inflexões em torno dos factores propiciatórios do conforto anímicos, da compensação nostálgica, da reanimação das esperanças – mais raramente, da refundação da virtude teologal da Esperança. A tendência dominante parece ser a de um esbatimento, se não alheamento, da questão salvífico-religiosa; mas em certos textos ou fulgura o reencontro esclarecido e edificante com o Redentor, ou sentimos a alma pós-moderna vivendo numa espécie nova de limbo, tão bem expressa pelo mais subtil dos actuais poetas de espiritualidade profunda, Fernando Echevarria: «estar sendo/antes ainda de haver epifania».
2.Tal é a força da temática da Natividade de Jesus e dos círculos concêntricos da Consoada que nem a ruptura revolucionária dos anos 70 suspendeu a sua exploração literária, nem evitou que novos organismos estatais, como o F.A.O.J., promovessem novos antologias (cf. Textos para o Natal, Cadernos F.A.O.J., Nº11, 1979, com textos de Agustina Bessa Luís, Alçada Baptista, Almeida Faria, Ana Hatherly, David Mourão-Ferreira, Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, Mário Cláudio, Miguel Torga, Nuno Bragança, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vergílio Ferreira), tal como pôde ocorrer com grémios de autores sob patrocínio de Governos regionais (cf. O Natal na voz dos poetas madeirenses, ed. da Associação de Escritores da Madeira, org. de José António Gonçalves, com poemas de Cabral Nascimento, Herberto Hélder, Irene Lucília, José Agostinho Baptista, José Tolentino Mendonça, A.J. Vieira de Freitas, António Aragão, Alfredo Vieira de Freitas, Carvalho Jordão, Carlos Nogueira Fino, Dalila Teles Veras, Florival de Passos, João Carlos Abreu, etc.).
No último quartel do século surgem, como no precedente (pela mão de V. Nemésio, de Azinhal Abelho, etc.), antologias globalizantes sobre Natal na Poesia Portuguesa (melhor exemplo, com esse título, o florilégio seleccionado em 1987 por Luís Forjaz Trigueiros) ou Natal na novelística portuguesa (melhor exemplo, com esse título, a antologia publicada em 1978 pela Ed. Arcádia, com narrativas de Afonso Botelho e Agustina, de Álvaro Manuel Machado e A. Alçada Baptista, de David Mourão-Ferreira e Domingos Monteiro, de Fausto Lopo de Carvalho e Fernanda Botelho, de João de Araújo Correia e João Maia, de José Martins Garcia e Luís Cajão, de Mário Braga e Miguel Torga).
Surgem também livros consagrados, no todo ou em parte, a essa temática por autores singulares – desde o Cancioneiro de Natal(1971) de David Mourão-Ferreira e o Retábulo para um íntimo Natal(1980) de A.M.Couto Viana até ao Longa Noite, Novo Dia de António Sousa Freitas, dos Contos de Natal(1964) de Domingos Monteiro e do Natal(1966) de João Araújo Correia, até à Infância do que nasci de Natércia Freire, ao Cancioneiro de Cabral Nascimento, etc..
Coma maior ou menor especificidade religiosa, o Natal inspira poemas e narrativas ainda a Tomaz Kim e Jorge Barbosa, a Daniel Filipe e a Merícia de Lemos, a Miguel Trigueiros e Vasco Miranda, a António Gedeão e Sophia Andresen, a Urbano Tavares Rodrigues, e Natália Nunes, a Amândio César e Manuel Boaventura, etc..

3. Talvez seja oportuno lembrar como, de meados do séc.XX em fora, alguns dos maiores poetas das várias tendências do nosso Neo-Modernismo celebraram a sua relação com a Natividade de Jesus em equação com os tempos e os contextos em que lhes foi dado viver e escrever.
Redimensionando os temas ancestrais da morte e do amor nesse grande «teatro de Deus» que é a vivência do mundo como rede amorosa entre os homens e as coisas, Ruy Cinatti exprime intensamente a condição cristã («A minha fome de Deus/…/ é Cristo crucificado,/ que no mundo,/ nos abençoa na vida/ e nos perdoa o pecado») e, a essa luz, sagra com o «Natal» as vicissitudes da experiência íntima e interpessoal: «Inverno lactescente, adormecido/Querer, noite encantada, / Já não sinto, porém, aquele amor, / Nem a vida sonhada/ Tudo se foi, pouco nos resta, /Ilhas não há, montanhas só no espírito/ Se elevam, distantes e coroadas/ Pela solidão. / No muro da minha alma há uma fresta. / Por ela entra o vento e a multidão/ Das vozes e dos signos. /Quando a certeza chega, o coração/Lança de si os trajes mais indignos/ E entra, sorrindo, na festa».

Depondo da mesma matriz de inquietação metafísica latente nos escritores dos Cadernos de Poesia, a lírica de Tomaz Kim contempla os embates dos acenos da fé com a amargura agnóstica na ponderação, entre sibilina e augustiniana, do segredo do Tempo. Mas, justamente nos seus extraordinários Exercícios Temporais, o espírito não se exime, em signo de Natal, de reagir à desencaminhada concretude das circunstâncias históricas e dos poderes conjunturais em nome do advento do Menino que é afinal o Senhor da Vida e o Senhor da História: «Eis aqui a estalagem:/Escassa a palha na manjedoira/E morno o bafo dos animais. //Brilhante a estrela/Brilhante o brocado/Dos Reis. //Oh, o fulgor, até, dos farrapos/Dos Pastores! /Claro o silêncio:/Um murmúrio a prece/Na noite clara/De Graça plena. //Mas longe, longe….tão perto, / Afinal, /Que uivo de mau agoiro/A prometer o estupro do Sol/E a sombra da carne viva/No chão/ Gravada? //Tão negra a noite, / Agora, /Ó, Senhores do Mundo, /Tão nua de Graça, /Agora, /A noite – a noite e os dias…»

Se, como sumularmente disse Fernando J.B. Martinho, a poesia de Sebastião da Gama, vencidas as «dúvidas» e «descrenças», esquecido o «azedume», conhece em «Maré Alta» a «Luz» de Deus e a ela se entrega no júbilo da sua «carne feliz», nessa poesia de diálogo a Virgem e o Menino surgem naturalmente como destinatários intratextuais da fala franciscana. Assim é, por exemplo, nos poemas «Lá fora é que sim» ou «Presépio» de Pelo sonho é que vamos.

É sobretudo em torno do Natal que emerge um dialéctica de incerteza e Esperança entre os «Contrapontos» fundacionais da obra poética de David Mourão-Ferreira. Não é gratuita, nem fácil a predisposição para a virtude da Esperança que ascende nessa Obra Poética; nem o seu reino é redutível à imanência social ou psicossensível. Ela pressupõe a catarse da desvalia no Humano e o despojamento propiciatório do Encontro salvífico – para que «o fogo nasça» e «seja Natal e não Dezembro». Nesse combate vale, com a piedade enxuta de um entendimento não-devocional da comunicação dos santos, a interferência dos que já venceram a morte – mormente da «filha que não morreu» e que, a caminho da Parusia, «Vem ilibar[-nos] de toda a culpa», refazer os laços amorosos e «velar-nos no alto céu» («Segunda Elegia de Natal»).
Mas o Mediador, e por isso o sustentador dessa comunicação dos santos, só pode ser o Jesus Cristo cujas «mãos aladas» marcam as tábuas da cadeira a que se senta, na mesa da espiritual e humaníssima consoada, essa «filha que nasceu morta». E o Natal, iluminado pelo memorial do nascimento de Jesus Cristo, é o tempo por excelência da refundação do ser na superação sagrada do mal e do nada.Sempre imune à dessacralização e à redução pitoresca, sempre actuante como religiosa refontalização e, por isso, como recolocação para o exame de consciência pessoal e para o implacável exercício da consciência crítica perante a circunstância histórico-social, a celebração da Natividade de Jesus constitui-se em carisma que sela a periódica revisão da vida («Blasfémia de Natal» ,1973).
Na Obra Poética de David-Mourão-Ferreira é decisivo que periodicamente, com a exigência de «Natal na Alma», o discurso de relação com o Mundo e com o Tempo se recentra em e por Jesus. Reconhecendo que tudo se reconverte em Cristo, e que, por isso, as sociedades contemporâneas sofrem «a grande pausa/ de recearmos» assumir a Sua existência («Coro de Natal» 1973), a poesia de David Mourão-Ferreira desloca, por 1967, a inspiração da Natividade de um ciclo da nostalgia para outro ciclo da instrumentalização crítica, mas mantendo Jesus como critério e instância de juízo e apelo perante a inautenticidade e a ignomínia (basta ver o remate de «Natal up-to-date»). Além disso, desde 1970 essa inspiração aprofunda-se num ciclo de reconversão, problemática em mais de um aspecto e por mais de uma vez, mas iniludível, porque na íntima celebração do Natal de Jesus «logo o nada/deixa de estar em tudo como estava» («Nada/Natal»).
Poesia que parece distrair-se e alhear-se espaçadamente do enlace entre o humano e o divino (abandonando a vivência desse enlace como aliança), o lirismo de David Mourão-Ferreira retorna periodicamente dessa diversão e recentra(-se) na identificação com o Verbo(que em Cristo é Pessoa e relação vivificante). Assim, uma Obra Poética que, ao despojar-se de referêncioas cultuais e confessionais, de alardes devocionais e de pesadumes doutrinais, pôde arrastar leituras autorizadas para a generalização de um espírito de imanência, polariza-se num dos mais autênticos textos de Fé da lírica portuguesa: o poema tão bem intitulado «Confissão de Natal»(1985), onde a divina Transcendência é vivida como Presença a um tempo íntima e remota e onde a experiência religiosa se consuma na relação profunda e intransmissível da pessoa humana com a Pessoa de Jesus Cristo, numa identificação tão fundacional quanto a compreensão (em sentido etimológico e gadameriano) do Nome no nome:

Vive o Teu Nome no meu nome
Eu sou David mas de Jesus
Daí a sede mais a fome
Da tua Luz
Vive o Teu Nome no meu nome
Não por acaso ó meu Jesus
É no que a todos mais escondo
Que vives Tu

A vivência religiosa é decisiva na poesia de António Manuel Couto Viana, mas como lirismo de espiritualidade anti-farisaica, que se eleva a custo sob o impulso do arrependimento, às mãos com o peso do desejo libidinoso ou do cepticismo (traduzido por vezes, na ironia de adjectivos e verbos, de parênteses e exclamações). Desde os poemas de encontro e desencontro com o Anjo Custódio de Mancha Solar, essa luta iluminada pela crença reconforta-se periodicamente no mistério da Encarnação e recolhe-se em Retábulo para um íntimo Natal: «-Quem é, que tem, esta criança? //Sei o seu nome, o seu desgosto, /Uma só vez em cada ano. /E, cada vez, lhe enxugo o rosto; /E, com mão trémula, o encosto/ Ao meu, já húmido de lágrimas. //Mas, ao sentir, como uma prece, / O meu chorar de arrependido, /Ela sorri, logo adormece.» («Nocturno de Natal»), «Já nada sou. Já nada importa. /Quem renascer chama-se Deus. /(Lá fora, o frio, fino, corta!)/ Natal, adeus!» («Elegia de Natal», Retábulo para Um íntimo Natal.). Por isso, mesmo o ousio de um «Natal esotérico» se crisma com a unção tradicional:

No nosso coração que não descansa
É um palpitar de esperança
Aquela voz,
Aquele grito informe de criança!
É o Mestre que vem? Já não estamos sós?

Que vão fazer as nossas mãos em prece?
Semear, amassar, o pão que há-de ir à mesa,
Para que tudo recomece
A partir de umas palhas de pobreza.
Vasto e profundo.
No invólucro de Cristo a cruz e a coroa.
Entregar novo mundo
Ao ponto fundo,
Com quem ajoelha e abençoa!

4. Não menos oportuno será exemplificar, com a lembrança de uma grande voz poética prematuramente desaparecida, como a literatura portuguesa continuou nos nossos dias a viver o Natal de Cristo.
O dramatismo lírico e a veemência verbal de Rodrigo Emílio ganham sempre altura quando animados pela piedade católica, que se afervora no cadinho das íntimas aflições e das agonias de homem português; e assim se manifesta tanto em «Pequeno altar de poemas, para depor aos pés da Virgem de Fátima», quanto nos poemas de Natal engastados nos livros Mote para motim e Coração mal couraçado e depois retomados na sequência «Consoadas da memória à mesa da solidão», do livro A Segunda Cegueira,. Com Rodrigo Emílio se exemplifica, aliás, como na segunda metade do séc. XX os dados existenciais da memória afectiva (e do cenário tradicional da celebração pública e familiar do Natal) se entrelaçam com a evocação da Sagrada Escritura e com a contemplação do enlace do ministério da Encarnação e do mistério da Paixão e Morte de Cristo na economia da Redenção (como se vê no poema «Música de neve, o silêncio branco»). Por isso também exemplifica que na poesia portuguesa contemporânea o lirismo de Natal continua a passar pela tensão espiritual da «Vigília» edificante:

«Meu Deus, aqui estou. E no mais não repares,
Por ser esta noite a Noite que é!

Em versos Te rezo. E no mais não repares,
Por ser esta noite a Noite mais calma!

-Conduz-me aos mais altos lugares
Da minha fé!

-Conduz-me aos mais altos lugares
Da minha alma!»

 

Dossier | José Carlos Seabra Pereira | 2008-12-23 | 11:00:00 | 13806 Caracteres | Natal

Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

(David Mourão Ferreira, Cancioneiro de Natal, 1971)

Um conto de Natal

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas.Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.

Cada menino abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora já está desperta.

De manhãzinha

salta da cama,

corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-o a surpresa

do Menino Jesus.

Jesus,

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,

dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

A Noite de Natal

Joana era uma menina solitária de amigos. Brincava sempre sozinha. Por vezes os primos e outros meninos iam lá casa para brincar com ela. Mas não eram seus amigos.
Até que um dia encontrou um amigo. Joana estava pendurada no muro de sua casa quando mesmo em diante dos olhos dela passou um rapaz. Joana tinha a certeza que aquele era o seu amigo. Tinha cara disso. Vestia calças remendadas e seus olhos brilhavam.
Joana ansiosa para conhecer o menino que tinha cara de amigo meteu conversa. A amizade com Manuel despontou logo desde início.
Pouco depois Manuel já conhecia por “dentro e por fora”, o adorável jardim de Joana.
Manuel vivia na pobreza entre os pinhais, numa cabana que partilhava com uma vaca e um burro.
Passaram-se dias e dias, sempre na companhia um do outro, até que chegou o Natal.
Nesse grandioso dia, as vistas já estavam presentes na sala e Joana não podia incomodar. Foi então que se lembrou de Manuel. Estava impregnada pela pergunta se Manuel iria receber muitos presentes. Foi então que perguntou a Gertrudes, a cozinheira da casa. Esta respondeu-lhe que não pois Manuel era pobre. Joana não acreditava. O Natal afinal era para todos.
Chegou a hora de abrir os presentes. A menina teve tudo o que queria. Saíram todos para a missa do Galo. Joana não. Aproveitou e foi ter com Manuel. Levou todos os presentes que tinha recebido e pôs-se a caminho.
O medo apoderou-se dela. No caminho nenhuma luz a iluminava. Pensou em voltar para trás. Mas a sua vontade de saber como estava Manuel era maior. Entrou na floresta, o seu medo continuava a aumentar. E aumentou ainda mais quando ouviu passos. Mas afinal era Melchior. Pouco depois encontrou também Gaspar e Baltazar. Seguiram uma estrela. Parou, e uma claridade apareceu em frente dos quatro. Foi então que viram Manuel deitado nas palhas e aconchegado pela vaca e o burro. Joana e os três reis magos ajoelharam-se e deixaram os presentes.
Afinal Manuel teve Natal. Um Natal maior de que Joana. O Natal verdadeiro.

Conto a “Noite de Natal” – Resumo

Sophia de Mello Breyner Andersen

Recolha feita pela professora Ana Castro, BECRE

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