Eugénio de Andrade 1923-2005

eugenio-de-andradeJosé Fontinhas Rato nome verdadeiro de Eugénio de Andrade, nasceu a 19 de Janeiro de 1923, em Povoa de Atalaia, na Beira Baixa. Foi, no entender de Óscar Lopes, “dos poetas portugueses do século vinte,(…), aquele que mais se aproximou das raízes da cultura portuguesa, servindo-se dela e servindo-a”.

Estudou em Lisboa, onde viveu com a mãe, e em 1943 matriculou-se no curso de filosofia, em Coimbra, onde conheceu Miguel Torga, Eduardo Lourenço e outras personalidades importantes da cultura portuguesa. Mais tarde foi residir para o Porto e a casa do poeta, no Passeio Alegre (Foz do Douro – Porto), albergou durante vários anos a Fundação Eugénio de Andrade (extinta em 2011).

A mãe é a figura dominante na sua poesia, tal como o período da infância e a sua terra natal ,como podemos ver em A Égua Branca e  Aquela Nuvem e Outras. Quando a 14 de Março de 1956 morre a mãe, morre uma parte do poeta: “A minha ligação à infância é, sobretudo, uma ligação à minha mãe e à minha terra, porque, no fundo, vivemos um para o outro“. Este acontecimento vai traduzir-se numa alteração dos temas da sua obra.

 OBRA

O seu primeiro poema publicado em 1939 chamou-se “Narciso . Pouco tempo depois começa a assinar com outro nome: nasce assim o poeta Eugénio de Andrade.

Em 1942, lança o seu primeiro livro de poesia: “Adolescente”.

Em 1944 começa a ser conhecido fora de Portugal, sobretudo em França, com a publicação do seu livro “Pureza” e a tradução dos seus poemas, ora em volumes autónomos, ora em antologias e revistas literárias estrangeiras.

Mas é com o livro “As mãos e os frutos”, em 1948, que Eugénio de Andrade alcança o sucesso. A partir de essa data inicia-se uma carreira especialmente rica em poesia, mas também no domínio da prosa, de tradução e antologia. Eugénio de Andrade ergue-se ao primeiro plano da poesia portuguesa.

À sua obra foram atribuídos vários prémios e condecorações, entre outros, o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada (1982) e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988). Também o Município do Porto (como, de resto, outros municípios, como Oeiras e Fundão) quis distinguir o poeta, atribuindo-lhe a Medalha de Mérito (1985) e a Medalha de Honra (1989) da Cidade. No estrangeiro, recebeu a Medalha da cidade de Bordéus (1990) e a Medalha da Universidade Michel de Montagne (2001). É membro da Academia Mallarmé (Paris), membro fundador da Academia Internacional «Mihai Eminescu» (Roménia).

Falece a 13 de Junho de 2005.

Adeus

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

 

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

 

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

 Adeus.

     Eugénio de Andrade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

 

 

 

 

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

 

 

 

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